13/06/2020 às 10h39min - Atualizada em 13/06/2020 às 10h39min

Pandemia desafia indústrias do RS a adaptarem o jeito de produzir

GaúchaZH
Funcionários da Datacom têm a temperatura corporal medida - Mateus Bruxel / Agencia RBS
A pandemia de coronavírus transformou os ambientes laborais. Exemplos disso estão na adesão massiva ao teletrabalho no setor de serviços ou à ampliação dos canais de vendas pela internet no comércio, alternativas encontradas para reduzir o contato pessoal entre funcionários e conter a propagação do vírus nas empresas. Mas como adaptar a linha de produção de uma fábrica ao atual contexto? Esse é o desafio imposto à indústria, setor com atividades consideradas essenciais e onde o uso intensivo de mão de obra torna inviável a realização de tarefas de forma remota.  
 

Além da adoção dos cuidados básicos e que seguem decretos de órgãos de saúde, como o uso de máscaras, mudanças nos hábitos de higiene e ampliação do distanciamento, fábricas no Rio Grande do Sul têm buscado assessoria com médicos e hospitais para encontrar soluções que gerem maior segurança nas linhas de montagem.
 

Infectologista e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Adauto Castelo Filho argumenta que, como ainda não há perspectiva de curto prazo para vacina ou remédio contra a covid-19, as empresas precisam inverter a lógica para terem eficácia na prevenção.
 

— Deve-se partir do pressuposto de que todo indivíduo na fábrica está assintomático e é um potencial transmissor. A partir daí, o que tem de fazer são barreiras de contenção do vírus — aponta Castelo Filho, que assessorou a JBS a reforçar protocolos após surto da doença na unidade de Passo Fundo.  
 

Tão importante quanto a adoção de medidas internas é a fiscalização. Por isso, começou a surgir nas fábricas a função do fiscal de covid. Trata-se de um profissional, geralmente da área de saúde ocupacional, que passa o dia percorrendo a unidade para verificar se os trabalhadores estão cumprindo as regras. A Datacom, fábrica de artigos de telecomunicações sediada em Eldorado do Sul, é uma das indústrias gaúchas que implementam essa estratégia.
 

— Estamos com 160 funcionários trabalhando na linha de produção, só afastamos quem era grupo de risco e não registramos caso de coronavírus — comemora o presidente da Datacom, Antonio Pôrto.
 

No local, o layout da fábrica foi modificado para permitir o distanciamento de dois metros entre os funcionários na linha de montagem. Outra estratégia adotada foi a criação de equipes de trabalho que atuam em diferentes locais da indústria. Assim, caso algum funcionário contraia a doença, poderá ser isolado para fazer o tratamento e ainda haverá substituto para assumir a função.
 

A diretora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) Lessandra Michelin constata que as indústrias mais eficazes no combate ao coronavírus são aquelas que tomaram a iniciativa de construir planos de contingência próprios logo no início da crise sanitária, indo além das recomendações comuns.  
 

— Esse tipo de orientação precisa ser personalizada, pois cada empresa tem sua particularidade — reforça Lessandra.
 

A Marcopolo, de Caxias do Sul, estabeleceu a busca ativa como um dos pilares de sua estratégia. Na entrada da empresa, todos os funcionários passam por triagem. Ao acessarem áreas comuns, como o refeitório, são questionados diariamente sobre sintomas e locais onde estiveram. Trabalhadores com suspeita são prontamente identificados e afastados.
 

— Também optamos por voltar a produzir com metade da capacidade, implementando dois turnos. Assim, mantemos o distanciamento — complementa Lusuir Grochot, diretor industrial e de logística da Marcopolo.
 

A rigidez faz com que diariamente haja trabalhadores barrados de ingressarem na planta, lembra Grochot. Na dúvida, a opção é por recomendar o isolamento. Até o momento, não há registro da doença entre os 3,4 mil trabalhadores.
 

Legado da covid-19
 

A mudança de hábitos e processos dentro das fábricas motivada pela pandemia de coronavírus deixará marcas definitivas na indústria. Entre dirigentes do setor há consenso de que, mesmo após o término da crise sanitária, cuidados adotados nos últimos meses deverão permanecer.  
 

O presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Calçados (Abicalçados), Haroldo Ferreira, avalia que os cuidados com a higiene ficarão como um dos legados do atual momento. Além disso, as áreas de saúde ocupacional das empresas devem manter alguns dos protocolos de triagem por um longo tempo, como a medição da temperatura das pessoas que circulam pelas fábricas.
 

— Esse costume de lavar as mãos frequentemente e higienizar os ambientes de trabalho são aprendizados que ficarão na vida pós-pandemia — salienta.  
 

O acompanhamento mais detalhado da saúde dos trabalhadores também tende a se tornar algo corriqueiro no pós-pandemia, na avaliação de Régis Haubert, diretor da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) no Rio Grande do Sul. As novas configurações das linhas de montagem, prevendo maior distância ou até mesmo barreiras físicas entre os colaboradores, também devem perdurar em alguns casos.
 

— Haverá maior cuidado com as doenças respiratórias — projeta Haubert.
 

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Já nas funções administrativas das indústrias, o trabalho remoto deve ser cada vez mais explorado. Essa é a avaliação do presidente do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas do Rio Grande do Sul (Simers), Cláudio Bier:
 

— Já não se vai precisar viajar tanto. Reuniões com representantes comerciais passaram a ser feitas remotamente. Isso deverá permanecer.
 

Ações de prevenção também são fundamentais na medida em que, a partir de segunda-feira (15), o Rio Grande do Sul praticamente não terá mais grandes fábricas paradas. A gigante que retomará as atividades neste dia é a GM, em Gravataí. A produção estava interrompida desde o final de março.

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