17/06/2020 às 08h32min - Atualizada em 17/06/2020 às 08h32min

Indefinição sobre volta às aulas leva creches a fecharem em definitivo no RS

GaúchaZH
Há três meses sem poder oferecer aulas presenciais e vendo a quantidade de alunos matriculados diminuir drasticamente, creches e pré-escolas da rede particular no Rio Grande do Sul estão passando por grave crise financeira. Como a dificuldade de promover lições online para crianças pequenas leva muitos pais a cortarem esse gasto em meio à pandemia de coronavírus, administradores de estabelecimentos de Educação Infantil relatam que não sabem se conseguirão reabrir as portas quando for permitido o retorno às aulas presenciais, em data ainda incerta.
 

As complicações financeiras são comuns a creches e escolinhas neste período, mas em alguns casos os problemas são tantos que, mais do que encontrar maneiras de oferecer algum conteúdo virtualmente para manter as matrículas, promover férias aos funcionários e procurar empréstimos, há estabelecimentos que não veem alternativa a não ser fechar em definitivo.
 

— Sabe o quanto a gente trabalha e luta para ter uma escola funcionando? Quantas regras, alvarás e legislações temos que cumprir? Estamos falando de educação, existe algo maior aí envolvido, mas agora não está mais dando. Não temos quaisquer condições de continuar funcionando mesmo quando tudo isso passar — revela o proprietário de uma creche em Canoas que prefere não ser identificado.
 

Além dele, a reportagem de GaúchaZH entrou em contato com administradores de três escolinhas em Canoas, duas em Porto Alegre e uma em Alvorada que anunciaram à comunidade escolar seu fechamento em definitivo. Algumas chegaram a criar campanhas de financiamento coletivo para tentar se manter. Revelando desânimo e, em alguns casos, até vergonha, nenhum quis ter seu nome divulgado.
 

Responsável pelo Colégio Êxito, em Alvorada, que atende alunos desde o berçário e vai conseguir manter as atividades escolares mesmo com esses desafios, Laura Ferreira de Andrade afirma que dívidas e incertezas têm sido comuns nessa área:
 

— As escolinhas não conseguem pagar o aluguel. Suspenderam contratos dos funcionários que estão em casa e ainda estão desesperadas pois não poderão demitir ninguém pelo tempo do contrato suspenso. Algumas já anunciaram que advogados estão dizendo que tem que fechar em definitivo. E mandar os funcionários procurarem os direitos na Justiça, pois não estão recebendo mensalidades de ninguém para arcar com os salários — explica Laura.
 

Ela faz parte de um grupo de 52 escolas infantis que têm trocado experiências sobre a sobrevivência em meio à pandemia. Conforme Laura, escolinhas que tinham em média 40 alunos agora não têm nem oito pagantes — e os poucos que pagam estão arcando com metade do valor da mensalidade.
 

— Nossa escola teve uma queda de 40% de alunos. Mas entendo que somente esse número, no meu caso, não seja relevante, pois os alunos que estão aqui representam um valor de 10% do total do movimento financeiro que a escola tinha antes da pandemia. Tivemos que ser solidários aos pais também, dando superdescontos, contando sempre com a volta — relata Talina Romano, proprietária de uma escola de Educação Infantil em Canoas.
 

Ela explica que contribui para o cenário preocupante o fato de que os governos estadual e municipais não apresentam datas claras para o retorno, deixando uma definição sempre em suspenso. Muitas escolas, declara Talina, se sentem "enroladas", pois "existe esperança para que possamos abrir 'logo', o que nunca acontece".
 

— Estou vendo isso como desafio. Estamos no limite de sustentar a existência da escola. Os 90 dias de auxílio entre suspensão e redução que recebemos estão acabando. Depois disso, não tem como manter uma folha de pagamento sem remuneração. Então, se este cenário se mantiver, fecharemos, certamente — lamenta a administradora.
 

— A situação geral das escolas de Educação Infantil no nosso Estado é caótica, estamos na iminência de um pedido de falência em grupos — revela Rejane da Silva Selistre, diretora do Sindicato Intermunicipal dos Estabelecimentos de Educação Infantil do Estado do Rio Grande do Sul (Sindicreches).
 

Rejane explica que, além do viés financeiro, há que se levar em consideração as condições não ideais em que os pequenos estão neste período. Ela cita que o serviço de "cuida-se", em que uma pessoa se oferece para acompanhar diversas crianças ao mesmo tempo, geralmente em sua própria casa, nem sempre é confiável. E deixá-las com os avós é colocar as pessoas idosas em risco.
 

— As escolas estão fechando, e as proprietárias, em sua grande maioria, estão deprimidas e envergonhadas. O descaso com a Educação Infantil privada por parte do governo federal, estadual e municipal é insuportável — garante Rejane.
 

Cancelamentos e inadimplência
 

Tatiane Ferreira da Silva, sócia-proprietária da Escola Arte Baby, no bairro Passo D'Areia, afirma que a instituição perdeu 30% das matrículas desde o início da pandemia, devido a cancelamentos e inadimplência. Em junho, registrou queda de cerca de 50% na receita.
 

A diretora conta que participa de um grupo de conversas que reúne cerca de cem escolas particulares destinadas a crianças, que também buscam uma saída para a crise:
 

— Estamos buscando formas de não chegar ao ponto de fechar a escola. Nosso setor financeiro é muito organizado, isso nos ajudou até agora. Mas percebemos que logo a situação vai ficar mais complicada. Pelo que vejo, de conversas com outros diretores, se não tivermos como reabrir em julho, o cenário fica muito delicado.
 

Desde abril, a escola vem oferecendo desconto aos clientes que mantiverem os contratos. Ao cortar despesas que não são necessárias neste momento, como água e luz, a instituição consegue repassar o desconto aos pais. A escola oferece também, como alternativa de conteúdo às crianças, a entrega de videos, uma gincana de festa junina online e kits, como o distribuído no Dia das Mães.
 

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Além disso, tenta manter o diálogo com os pais que precisaram cancelar os contratos, na "expectativa de que possam retornar à instituição" quando for reaberta. A falta de perspectiva sobre uma possível retomada é um dos pontos negativos, na avaliação da diretora:
 

— Claro que a gente entende a preocupação dos governantes, tememos pelas crianças e pelos funcionários. Mas a falta de perspectiva, de orientação sobre quando poderemos voltar a funcionar pesa muito. A gente espera que o governo possa ajudar de alguma forma, nos dar um apoio maior.

 

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