27/03/2021 às 10h43min - Atualizada em 27/03/2021 às 10h43min

Kit covid atrasa ida a hospital e resulta em danos no fígado e agravamento da infecção pelo coronavírus, alertam especialistas

GaúchaZH
O uso do chamado kit covid, um coquetel de medicamentos sem eficácia comprovada contra o coronavírus, está provocando efeitos colaterais no fígado de pacientes e atrasando a busca por internação, relatam médicos que atuam na linha de frente do combate à pandemia no Rio Grande do Sul entrevistados por GZH. O resultado é hospitalização com quadro mais grave e maior risco de ir para a entubação. 
Os principais efeitos adversos relatados são diarreia, enjoo, vômito, envenenamento por excesso de uso e lesão no fígado – órgão responsável por metabolizar medicamentos. Médicos descrevem ainda que o uso precoce de corticoide e o atraso na ida ao hospital resultam em maior dano no pulmão pelo vírus. 
O Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers) já recebeu relatos não formalizados de médicos que atenderam pacientes com graves danos no fígado após o uso de drogas do kit covid.
— Os principais efeitos são náusea e vômito, mas também já teve hipervitaminose (envenenamento) por vitamina D e até insuficiência hepática fulminante. O uso de vitamina D é completamente controverso para a covid. Um paciente sentiu extrema fraqueza e mal-estar, foram averiguar e ele tinha 100 mil nanogramas por mililitro de vitamina D, quando o normal é acima de 20 — afirma o vice-presidente do Cremers, Eduardo Neubarth Trindade. 
O kit covid é um coquetel de cloroquina, hidroxicloroquina e azitromicina recomendado em protocolo pelo Ministério da Saúde nas fases leve e moderada da doença. Um aplicativo do governo chamado TrateCov, posteriormente removido, também aconselhava o uso de ivermectina, dexametasona, doxiciclina e zinco.
A recomendação oficial pavimentou o caminho para médicos adaptarem o kit e incluírem outras drogas, como nitazoxanida, colchicina, cálcio, vitamina C e vitamina D – totalizando, em algumas prescrições, mais de 10 remédios receitados.   
A eficácia dessas medicações contra o coronavírus foi largamente refutada em grandes estudos e por entidades reconhecidas, como a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), a Organização Mundial da Saúde (OMS), a agência regulatória dos Estados Unidos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e, no caso da ivermectina, a própria fabricante
Apesar disso, as drogas são prescritas até mesmo de forma preventiva em clínicas e consultórios particulares e em postos de saúde, em alguns municípios. Como resultado, a venda de alguns desses remédios disparou em 2020 frente ao ano anterior no Rio Grande do Sul, segundo levantamento do Conselho Federal de Farmácia (CFF.
As estatísticas se traduzem na experiência do dia a dia: mais da metade dos pacientes com coronavírus hospitalizados usa ao menos um medicamento do kit covid, revela Marcelo Basso Gazzana, chefe do Serviço de Pneumologia e Cirurgia Torácica do Hospital Moinhos de Vento
Além dos efeitos colaterais no organismo, ele diz que o problema do uso como "tratamento precoce" é a falsa sensação de segurança, o que leva o indivíduo a reduzir os cuidados no dia a dia e, em caso de infecção, atrasar a ida ao hospital. 
Como consequência, médicos de hospitais precisam tratar a doença em estágio mais grave e ainda lidar com os eventuais danos no fígado de pacientes, um perigo a mais para quem tem diabetes, pressão alta e lesões prévias no órgão. 
— A pessoa acha que está se tratando com uma medicação que funciona, aí pensa em esperar uns dias para ver se faz efeito. Em vez de chegar precisando de oxigênio comum, acaba precisando de máscara ou ser entubado. A doença progride rápido — afirma Gazzana. 
Em São Paulo, três pessoas morreram por hepatite e cinco foram para a fila de transplante de fígado, revelou o jornal O Estado de S.Paulo. No Rio Grande do Sul, três pacientes morreram após uma médica usar nebulização de hidroxicloroquina – o hospital a demitiu e denunciou ao Cremers, enquanto o presidente Jair Bolsonaro a defendeu. Médicos entrevistados não relataram casos de morte por dano no fígado em território gaúcho.
— Temos observado diversos pacientes que utilizaram esses medicamentos e internam com piora clínica, especialmente com comprometimento pulmonar e alteração nos exames que avaliam o dano hepático. Temos também pacientes com diarreia relacionada ao uso de alguns desses medicamentos. Parece haver certa busca por mágica que resolva a doença, quando, infelizmente, não temos medicamento curativo — destaca o médico infectologista Ronaldo Hallal, do Comitê Covid-19 da Sociedade Sul-Riograndense de Infectologia (SRGI). 
Os danos no fígado decorrem da interação dos vários medicamentos e também do excesso de uso – há prescrições de ivermectina que chegam a cem vezes a dose recomendada. 
As lesões prévias no fígado ocasionadas pelas medicações podem se somar aos danos causados pelo coronavírus em doença grave, destaca Mário Reis, chefe do Serviço de Gastroenterologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e membro da Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH). 
Ele diz que um indicativo de que o dano no fígado ocorreu pelo uso do kit, e não pela doença em si, é que pacientes com covid-19 leve a moderada não costumam ter problemas hepáticos, algo característico dos quadros graves. Mas há pacientes com coronavírus branda e que, após usarem as drogas de forma precoce, apresentam alterações no fígado.
— As pessoas estão utilizando uma quantidade enorme de medicamentos antes de chegarem ao hospital. Isso é um risco adicional extremamente importante, que fica ainda maior em quem tem doença no fígado, quem consome álcool em excesso, quem tem diabetes ou quem tem cirrose — diz Reis. — Há casos em que o paciente teve covid não tão grave, mas ele tomou 500 medicamentos nas doses mais variadas e aí aparecem alterações no fígado dias depois. Se a pessoa vem com o fígado lesionado, aumenta o risco de insuficiência hepática e de a pessoa ser candidata a transplante — acrescenta.
Na maior parte dos casos, os efeitos colaterais são reversíveis após a suspensão do uso das drogas, explica o infectologista Alexandre Zavascki, médico no HCPA e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A exceção é o uso dos corticoides dexametasona e prednisona, que favorecem a progressão da doença quando usados de forma precoce, afirma.
— Há estudos mostrando que, usados de forma errada, esses medicamentos aumentam a mortalidade. Corticoides ajudam quando entregues no momento e dosagem adequados. O problema é que chegam pacientes que usaram no momento errado e na dosagem inadequada. No início da infecção, a resposta imunológica é importante, então, usar corticoide favorece a replicação do vírus: é como colocar o sistema imunológico para dormir quando ele precisa estar muito ativo. O benefício demonstrado é em uma fase mais tardia, quando a inflamação da doença está muito exacerbada e compromete a função pulmonar — acrescenta Zavascki. 
Apesar de mais raros, efeitos colaterais mais graves, como um dano no fígado tão grande a ponto de ser necessário um transplante, se tornam mais prováveis à medida que mais pessoas usam os medicamentos em alta dosagem, analisa o médico intensivista Wagner Nedel, presidente da Sociedade de Terapia Intensiva do Rio Grande do Sul (Sotirgs) e linha de frente em dois hospitais de Porto Alegre. 
— Nosso foco primordial é a pneumonia. Mas o não funcionamento adequado de outros órgãos prejudica o tratamento. Um paciente com função renal inadequada acumula mais líquido, pode ter edema, atrapalhar a oxigenação, piorar a irrigação sanguínea — diz, destacando que o atraso na ida ao hospital resulta em maior chance de entubação. 

 
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