07/04/2021 às 15h05min - Atualizada em 07/04/2021 às 15h05min

Receituário médico impresso e patrocinado com "tratamento precoce" de covid-19 é alvo de investigação do Cremers

Gaúcha ZH
Circula pelo município de Taquara, no Vale do Paranhana, um receituário impresso e patrocinado com medicamentos usados no chamado "tratamento precoce" da covid-19. No papel, consta a prescrição de sete remédios com a recomendação de dia a ser tomado a partir do sintoma da doença causada pelo coronavírus. Entre eles, estão a hidroxicloroquina e a ivermectina, que viraram alvo de disputa política após serem defendidos pelo presidente Jair Bolsonaro, apesar de não terem eficácia comprovada, segundo especialistas, e de oferecerem riscos de efeitos colaterais.  
O receituário é creditado a um conselho local de médicos e apresenta o apoio de uma loja de construções, a FH Comassetto, e de um consultório odontológico, o Born & Volkart. As duas empresas disseram a GZH que doaram valores para uma campanha de conscientização da covid-19 e não tinham conhecimento de que seria confeccionado um receituário.   
A distribuição da receita pela cidade virou alvo de investigação pelo Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers). A prioridade da entidade é descobrir o que é o Conselho Médico Covid de Taquara e quem é o diretor técnico.  
Para Marcelo D'avila, coordenador das delegacias seccionais do Cremers, a distribuição pode ter "uma série de irregularidades do ponto de vista ético, além de uma série de ilegalidades". Além disso, ele lembra que uma receita não pode ser padrão. 
— Uma receita médica não é uma receita de bolo. O médico deve prescrever o tratamento após o exame físico do paciente. As pessoas são indivíduos diferentes, há de se considerar indicações e contraindicações. Há uma série de problemas que estamos apurando — declarou.
O Cremers também afirma que "não é regular que receituário médico tenha patrocínio de empresas, quer seja da área médica ou não". Segundo D'avila, isso pode configurar uma "prática mercantilista da profissão", a qual cabe punição interna. Por enquanto, a investigação da Comissão de Divulgação de Assuntos Médicos (Codame) ainda está na fase inicial, de identificação de envolvidos. Em caso de identificada irregularidade, pode gerar até uma sindicância com a possibilidade de perda do registro profissional no conselho. 
Procurada por GZH, a prefeitura de Taquara confirmou ter conhecimento da existência do receituário impresso. O município informou que as prescrições foram distribuídas a um grupo de médicos "que ganharam de forma gratuita alguns receituários prontos", mas negou que tenha participado da confecção do documento e não disse quem distribuiu.  
Apesar de negar participação na confecção do documento, a prefeitura também garantiu que este "serve apenas como base, podendo ser alterado de acordo com o ato médico e poder de livre arbítrio do paciente em aceitar ou não o tratamento prescrito".
A reportagem não conseguiu esclarecer se o receituário chegou a ser repassado por médicos a pacientes na rede pública ou privada. Após responder os questionamentos iniciais, a prefeitura de Taquara voltou a ser procurada, por telefone e mensagens, mas não respondeu mais aos contatos.  A investigação do Cremers ainda está em fase inicial e não esclareceu esse ponto. 
GZH questionou a prefeitura se o grupo de médicos que confeccionou o receituário é ligado à administração municipal, que respondeu que o "Conselho Médico Pró-Vida de Taquara” – nome distinto do que aparece no documento, Conselho Médico Covid de Taquara – é grupo “autônomo que atua de forma consultiva e voluntária, sem nenhum vínculo nem interferência nos trabalhos da Administração Municipal".    
O grupo de médicos, no entanto, já apareceu em lives transmitidas pelos canais oficiais da prefeitura nas redes sociais orientando a população do município. Em 10 de março, a prefeita da cidade, Sirlei Silveira (PSB), fez vídeo ao lado de três médicos apresentados como membros deste conselho. Richard Santos Pereira, Mauro Werb Junior e Marcelo Conrad orientaram o uso de ivermectina como medida para prevenir a covid-19 ou mitigar os sintomas. Na ocasião, a prefeita confirmou que os médicos eram os participantes do conselho que agora aparece nos receituários impressos.     
— Os médicos de Taquara sugerem o medicamento, quem sou eu para contrariar? Eu não vou deixar as pessoas morrerem, vou tomar uma atitude e ouvir quem está tratando pacientes e conseguindo bons resultados — posicionou-se Sirlei.    
Apesar de o Executivo afirmar que o grupo é composto por infectologistas, os três médicos que apareceram ao lado da prefeita não se apresentam como especialistas da área. Richard Pereira é anestesiologista, Mauro Werb Junior possui uma clínica que trata varizes e Marcelo Conrad é clínico geral.    
GZH procurou os três médicos. Richard não atendeu as ligações da reportagem, nem respondeu as mensagens no WhatsApp, apesar de tê-las visualizado. Depois, o contato constou como indisponível. A reportagem ligou para a secretária de Mauro, que informou que o médico não responderia e passou o contato de Richard, adiantando que "este está mais por dentro do receituário". GZH não conseguiu contato com Conrad até a publicação desta matéria.   
 
 Sem eficácia comprovada   
A farmacêutica Merck, que no Brasil opera com o nome MSD e é responsável pelo desenvolvimento da ivermectina, afirmou em comunicado, em 4 de fevereiro deste ano, que o fármaco não tem "nenhuma evidência significativa" para proteger ou curar pessoas com coronavírus. Além disso, a companhia ressaltou que não há "nenhuma base científica para um efeito terapêutico potencial contra covid-19 de estudos pré-clínicos". Também não existe "nenhuma evidência significativa para atividade clínica ou eficácia clínica em pacientes" com a doença.
A agência regulatória dos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA), enumerou uma lista de medicamentos que não têm eficácia comprovada contra a covid-19, e a ivermectina está entre eles. O órgão apontou ainda que tomar grandes doses desse fármaco é perigoso e pode causar sérios efeitos, como náuseas, vômitos, diarreia, queda de pressão, reações alérgicas, tonturas, ataxia (problemas de equilíbrio), convulsões, coma e até morte. Além disso, há a chance de a ivermectina afetar a eficácia de outros remédios, como os anticoagulantes.
A ivermectina integra a lista de medicamentos distribuídos nos postos de saúde do município. Além disso, a prefeitura de Taquara solicitou 20 mil comprimidos de cloroquina ao governo federal — outro remédio sem qualquer comprovação de eficácia contra o coronavírus. 
Além disso, em um comunicado, a Organização Mundial da Saúde recomendou que "não se utilize a ivermectina" para os pacientes de covid-19, salvo nos ensaios clínicos.
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