05/02/2022 às 11h21min - Atualizada em 05/02/2022 às 11h21min

Doenças mentais pedem tratamento e apoio

Correio do Povo

“Em alguns dias é como se eu fosse a melhor pessoa do mundo. Eu fico produtiva, feliz, comunicativa, com uma ótima autoestima e sinto que posso fazer qualquer coisa. Mas eu fico impulsiva, irritável e não consigo dormir. Esse é um episódio de mania. Em outros dias, eu e minha cama nos tornamos uma. É mais do que estar apenas triste, eu me sinto vazia, sem esperança. Eu durmo muito, choro muito, tenho problemas em me concentrar ou tomar decisões e me sinto completamente inútil. Esse é um episódio depressivo.” É assim que Gabriela Souza, de 20 anos, descreve o transtorno bipolar (TB), para o qual recebeu diagnóstico no início de 2021.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 60 milhões de pessoas no mundo sejam afetadas pelo transtorno. A característica mais marcante do TB é a alternância de episódios de euforia (mania) com episódios de depressão, como descreve Gabriela. As crises podem variar em frequência, intensidade e duração. O TB é classificado em tipos, do mais severo ao mais leve. Por vezes, pode levar até dez anos para que um paciente seja diagnosticado com TB. Isso porque os sintomas da fase depressiva são muito similares aos de outros transtornos, entre eles a depressão unipolar, que afeta mais de 280 milhões de pessoas, 3,8% da população mundial. “Quando esse paciente finalmente é diagnosticado, ele já tem sintomas que são crônicos, sequelas. Há um comprometimento neurocognitivo”, explica o médico psiquiatra Luiz Coronel.

A demora no diagnóstico leva, consequentemente, a uma demora no início do tratamento. Isso reforça a importância de um diagnóstico e tratamento corretos. “No Brasil, o sistema de saúde público não é dirigido para diagnosticar precocemente, não está preparado para isso”, diz o médico. O Atlas da Saúde Mental de 2021, publicação da OMS, revela que há uma falha mundial em fornecer às pessoas os serviços de saúde mental de que precisam. Em 2020, apenas 51% dos 194 estados-membros da OMS relataram que sua política ou plano de saúde mental estava de acordo com os instrumentos internacionais e regionais de direitos humanos, muito aquém da meta de 80%. “Transtornos mentais como depressão e TB são algumas das maiores causas de incapacidade no mundo”, alerta Coronel. Segundo o médico, 25% das pessoas que se suicidam sofrem de TB, além disso, esses pacientes costumam viver cerca de nove anos a menos do que a população geral. “Isso porque não afeta só o humor. Afeta também problemas cardiovasculares”, frisa.

Ainda segundo o médico, há estudos que apontam mais de 30 doenças associadas à depressão. Pessoas com depressão costumam sentir mais sintomas físicos do que pacientes com TB. “São desde problemas de pele até de locomoção. É um problema grave.” O abuso de substâncias químicas, como o álcool, também é bastante associado aos transtornos mentais. Pessoas que possuem tendências depressivas são mais vulneráveis à dependência alcoólica ou de outras drogas. Quando isso acontece, geralmente esses indivíduos buscam nas drogas uma válvula de escape para o seu sofrimento emocional. Contudo, esse vício pode potencializar as crises depressivas, pois quando os efeitos das drogas passam, o usuário se sente mais deprimido do que o normal. Estresse, genética, nutrição e exposição a perigos ambientais também são fatores que contribuem para os transtornos mentais.

Mesmo atingindo milhões de pessoas em todo o mundo, os transtornos mentais ainda são tabu na maioria das sociedades. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), em países de baixa e média renda, entre 76% e 85% das pessoas com transtornos mentais não recebem tratamento. Apesar disso, tratamentos eficazes existem. O TB não tem cura, mas pode ser controlado. Tanto ele quanto a depressão podem ser tratados com terapia psicossocial e medicamentos. A melhor maneira de evitar crises é seguir um tratamento à risca.

Diagnóstico preciso e acesso aos medicamentos certos é fundamental

 

Os medicamentos são, junto com a psicoterapia, parte importante para o tratamento do TB e da depressão. O uso de psicofármacos é capaz de alterar a atividade mental, aliviando os sintomas e ajudando na reintegração do paciente no meio social e familiar. A OMS recomenda que os medicamentos psicotrópicos estejam nas listas de medicamentos essenciais, reforçando a importância deles para o tratamento integral de pacientes psiquiátricos. O SUS possui linhas de tratamento tanto para depressão quanto para transtorno bipolar, desde a assistência básica, de responsabilidade das farmácias municipais, até a especializada, fornecida pela farmácia do Estado.

Conforme explica Giovana Ranquetat, presidente regional da Sociedade Brasileira de Farmacêuticos e Farmácias Comunitárias, quando o paciente começa o tratamento, primeiro ele tem acesso à linha básica, na farmácia municipal. Se por acaso ele não se adequar, ou o médico quiser evitar algum efeito colateral que o medicamento da linha básica pode ocasionar, existem outras linhas de antidepressivos e de estabilizantes de humor na farmácia do Estado. “Depois de passar pelo município, de não se adaptar aos medicamentos de primeira linha, o médico resolve passar para outra terapia.”

Para ter acesso aos medicamentos da linha básica, que estão nas farmácias municipais, o paciente deve apresentar a receita de controle especial e seus documentos de identificação, incluindo o cartão SUS e comprovante de residência. Sendo morador do município, o paciente vai até a farmácia básica, se o medicamento estiver dentro da lista de medicamentos fornecidos, relação esta que difere minimamente de município para município. Caso o paciente precise de um medicamento que só é fornecido pelo Estado, precisa de mais documentos. Cada doença possui um protocolo de documentos e exames laboratoriais.

O tratamento da depressão unipolar geralmente é feito com antidepressivos. Já o tratamento do TB é um pouco mais complexo. “Como eles têm ciclos depressivos e de excitação, eles têm que usar um regulador de humor, além do antidepressivo”, explica Luiz Coronel. O mais conhecido deles, disponível nas farmácias municipais, é o carbonato de lítio. Para o tratamento dos dois transtornos podem ser adicionados outros medicamentos, a depender dos sintomas. A depressão exige acompanhamento constante e, conforme o quadro de melhora, eventualmente pode-se diminuir a dose dos medicamentos, chegando a cessá-los. O paciente de TB, por outro lado, terá que tomar os remédios a vida inteira.

Com o distanciamento instaurado na pandemia, foi lançado o site Farmácia Digital RS, uma iniciativa do governo do Estado e, para Ranquetat, uma “grande evolução”. Na farmácia digital, o paciente pode consultar o endereço da farmácia no seu município, os medicamentos disponíveis, os documentos necessários para encaminhá-los pelo site e retirá-lo. Na primeira retirada do medicamento na farmácia, ele leva os documentos originais. “Isso está caminhando para ser cada vez mais facilitado. Claro que ainda temos problemas de falta de medicamentos, mas até isso é possível verificar pelo site”, avalia Ranquetat.

“O grande problema desses transtornos é que o paciente tem uma difícil adesão ao tratamento. Ele muitas vezes não consegue autogerenciar o uso dos medicamentos”, constata a farmacêutica. Estudos relatam que cerca de 50% deles não incorporam o tratamento de forma correta e o interrompem em algum momento. São diversos os motivos para a falha no tratamento: o uso de drogas, a gravidade da doença e a polaridade, efeitos colaterais dos remédios e, até mesmo, a personalidade do paciente. A isso somam-se as razões particulares de cada indivíduo. Há ainda frequentes erros de diagnóstico e, portanto, de prescrição, diminuindo ainda mais a aceitação do tratamento.

Por conta desse problema, cuidados farmacêuticos devem ser priorizados. “Eles sentem os efeitos colaterais, alguns relatam náuseas, diarreia, inchaço, dor de cabeça, sonolência, e às vezes eles não sabem que vão passar por isso por um determinado período apenas, até se adaptarem. Muitas vezes a dosagem da medicação demora para ser ajustada e eles passam mal. Essas questões complicam a adesão ao tratamento”, relata Ranquetat. Muitos não sabem, mas eles também podem buscar orientação do farmacêutico depois da prescrição do médico. “A gente várias vezes conversa com o médico para ajustar a dosagem. Não é só o acesso ao medicamento que precisamos, mas também acesso à orientação.”

Para ter acesso aos medicamentos do Estado, o encaminhamento pode ser tanto de médico do SUS quanto de médico particular. Já nos municípios, a política varia. Alguns aceitam somente encaminhamentos do SUS enquanto outros aceitam ambos. Em Porto Alegre, somente receitas do SUS são aceitas. “Quando o paciente recebe uma prescrição e vai fazer o uso do medicamento pela primeira vez, de fluoxetina, por exemplo, esse é um medicamento fornecido pelo município. Muitas vezes acontece de o paciente ir até uma farmácia do Estado buscar medicamentos que estão no município. Vemos muito isso”, conta a farmacêutica. Por vezes, os pacientes querem, até mesmo, entrar com processo judicial no Estado sem terem sido orientados que podem ter acesso ao remédio diretamente pelo município. É importante antes de entrar com processo judicial, verificar tanto a lista municipal quanto a estadual.

“O médico tem a prerrogativa, de acordo com as necessidades do seu paciente, de escolher um medicamento que esteja fora dessas listas por não querer que o paciente tenha certos efeitos colaterais, por querer um tratamento mais específico ou outros motivos”, sustenta Ranquetat. Nesses casos, o paciente deve ir até a farmácia do Estado e retirar uma negativa, que diz que aquele medicamento não é fornecido. Com essa negativa em mãos, ele pode entrar com o recurso judicial, o que geralmente é feito pela Defensoria Pública. Para isso, é muito importante que a receita obedeça a todos os critérios. “Vemos muitas receitas que não têm todos os dados necessários, como a data, por exemplo, ou, ainda, a receita está ilegível. Isso não quer dizer que seja uma negativa. Na verdade, a gente preza pela segurança dos pacientes e para isso precisamos desses dados”, garante. A legibilidade e a data da receita são imprescindíveis. A data atesta que o paciente está sendo atendido em tempo real, que precisa daquele medicamento. “Que não foi algo prescrito há seis meses, por exemplo. Às vezes o transtorno se agrava e ele já não precisa mais daquele medicamento, mas sim de outro.”

Auxílio psicológico ajuda a trabalhar o sofrimento

 O atendimento psicológico é fundamental no tratamento de depressão e transtorno bipolar e o espaço do consultório pode ser um lugar de acolhimento para quem busca atenuar o sofrimento. Foto: Fabiano do Amaral

A psicoterapia é fundamental no tratamento dos transtornos mentais. Até mesmo o diagnóstico pode se dar durante o acompanhamento psicológico. “Nós acolhemos os pacientes, ouvimos as queixas deles e fazemos testes quando necessário, para identificar qual é o diagnóstico”, confirma o psicólogo Marco Aurélio Alves. O diagnóstico é feito com base no manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Segundo o psicólogo, tem se tornado comum buscar diagnósticos na Internet, digitando sintomas em ferramentas de busca, como o Google. “Às vezes isso não confere. Vejo inclusive pessoas buscando tratamento medicamentoso quando, na verdade, a pessoa não tem sintomas característicos do transtorno”, relata.

Depois do diagnóstico, a psicologia tem o papel de identificar e trabalhar o sofrimento do paciente. “Um paciente bipolar, por exemplo, em seus episódios maníacos, o que ele experimenta? Quais os prejuízos que isso traz para a vida dele? A partir daí, com orientação do profissional, ele mesmo poderá descobrir soluções”, propõe Marco. “O psicólogo irá auxiliar nas estratégias para modificar os pensamentos irreais, desorganizados e depressores, tendo como objetivo principal reduzir a intensidade e frequência dos sintomas”, complementa a também psicóloga Eliane Vodonis.

As sessões de psicoterapia são moldadas de acordo com as necessidades individuais dos pacientes. Para pacientes depressivos, o foco geralmente se dá nas causas emocionais que desencadeiam o transtorno. “Orientamos o paciente a buscar alternativas que diminuam o sentimento de dor, tristeza, pessimismo, ajudando o paciente a se sentir melhor, mais seguro e habilitado a seguir sua vida”, explica Vodonis. Já pacientes bipolares são ensinados a reconhecer as oscilações do humor e a buscar estratégias para modificar suas ações, diminuindo possíveis prejuízos.

Caso necessário, o psicólogo poderá encaminhar o paciente para um consultório psiquiátrico para que seja iniciado o tratamento medicamentoso. O psiquiatra é o único profissional que pode prescrever os remédios.

Piora durante a pandemia de Covid-19

 A pandemia de Covid-19 teve um impacto agravante na saúde mental da população mundial. Em muitas pessoas, as incertezas em relação à doença, a perda ou o medo de perder amigos e parentes, o isolamento social e o receio pelo futuro provocaram ou agravaram transtornos mentais. Foto: Mauro Schaefer

Além das consequências óbvias do coronavírus, os impactos na saúde e as mortes, repercussões socioeconômicas, como aumento da pobreza, do desemprego e da insegurança alimentar ganharam destaque. Além disso, nas Américas, problemas como violência doméstica, principalmente contra mulheres e crianças, chegaram a taxas quase três vezes maiores do que os números anteriores à pandemia. Todos esses são eventos devastadores para a saúde mental. 

Para piorar a situação, muitos serviços necessários para pessoas com transtornos mentais foram interrompidos durante a pandemia. A falta de acesso a serviços de aconselhamento, de atendimento presencial e o fechamento de escolas têm limitado as formas pelas quais as pessoas podem receber suporte, deixando-as muitas vezes isoladas e vulneráveis.

Um estudo da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) analisou que quatro em cada dez brasileiros tiveram problemas de ansiedade desde o início da pandemia. No Peru, os sintomas de depressão aumentaram cinco vezes e, no Canadá, quadruplicou a proporção de pessoas que relatam altos níveis de ansiedade. A pesquisa também demonstrou que populações mais vulneráveis, como jovens, mulheres, pessoas com transtornos mentais preexistentes, além de trabalhadores da saúde, foram especialmente afetados pelas interrupções de suporte durante o período.

Contar com o suporte de familiares ou de pessoas próximas faz toda diferença no tratamento de doenças mentais

 O apoio da família e de amigos é importante, mas eles também precisam de orientação, devem aprender como se relacionar de forma positiva com o paciente. Isso porque a família, muitas vezes sem instrução, passa a ter comportamentos equivocados com a pessoa doente. Foto: Fabiano do Amaral

Transtornos mentais são complexos e têm grandes repercussões não somente na vida do paciente, mas também na de suas famílias e na sociedade. É de comum acordo entre os profissionais da saúde mental que a participação da família é importante no tratamento. Na hora de buscar um diagnóstico, a intervenção dos próximos se mostra essencial na maioria dos casos. É necessário alguém para detectar que a pessoa não está bem. Pode ser um companheiro, um pai, uma mãe, um irmão, ou até mesmo um colega. “A família, quando nota algo, deve procurar um especialista, seja ele o médico da família, um psiquiatra, um psicólogo. Alguém que entenda da matéria, que saiba identificar se é um transtorno ou não”, indica o psiquiatra Luiz Coronel. “O critério para buscar ajuda é se a pessoa não está conseguindo manter suas responsabilidades. Se é estudante, é estudar. Se é trabalhador, é trabalhar. Se não consegue manter o convívio. Algo está errado se este for o caso”, destaca.

Famílias com problemas de convívio prévios podem ter mais dificuldade em reconhecer quando um parente está passando por algum transtorno. “Por exemplo, o desinteresse de um companheiro pela vida em família pode ser visto como um sinal de infidelidade ao invés de um sinal da depressão, que pode ser o que realmente tem”, relata o psicólogo Marco Aurélio Alves.

Quando a família também busca apoio, ela aprende como se relacionar de forma positiva com o paciente. “Eu não acredito em tratamento que não contemple a família. Os familiares têm que ser ensinados quando a pessoa não está bem, como buscar ajuda, que a doença não é falta de força de vontade, mas sim uma doença”, defende Coronel. A família, muitas vezes sem instrução, passa a ter comportamentos equivocados com o paciente. “Se temos alguém deprimido e passamos o dia dizendo ‘não faça isso, ele está deprimido’, nós vamos reforçando a depressão do paciente, com muita dificuldade para que ele saia disso depois”, reflete Alves.

A família precisa entender como agir para ajudar o paciente e auxiliar na superação. O psicólogo destaca que no caso de pacientes usuários de drogas e pacientes idosos, é comum que a família não seja presente. “A maioria desses pacientes é solitária e busca o apoio da família, que está cansada dos problemas que eles trazem”, explica o psicólogo. Ao ouvir problemas que se repetem com frequência, a família se sente impotente e é nessa hora que a família deve buscar ajuda profissional.

A primeira coisa a fazer é acolher, não criticar. “Não mande no paciente, não diga ‘faça isso, faça aquilo’. Por que, sem dúvida, ele só não fez ainda, por que ele não consegue. Faça com ele. Vá junto. Acompanhe-o, apoie-o. As famílias estão acostumadas a julgar os seus. Isso não é função da família, a função é acolher, orientar e amar”, reforça.
Além disso, a família pode, por vezes, precisar também de acompanhamento psicoterápico, porque o distúrbio pode afetar todos os que convivem diretamente com o paciente. “Na dúvida, procure um profissional da saúde, seja para você ou para um familiar”, finaliza Coronel.

Quando se fala em família, não necessariamente precisa ser a de sangue, mas a do convívio próximo do paciente. “Atendi um caso em que o paciente não tinha familiares e quem me contatou foram os colegas de trabalho, preocupados com uma crise que ele estava passando”, conta o psiquiatra. Muitas vezes apenas palavras de apoio já podem fazer a diferença para alguém que está em tratamento.

Gabriela Souza, que foi diagnosticada com transtorno bipolar no início de 2021, postou seu relato em uma rede social e recebeu mensagens positivas de colegas de trabalho. “Quando eu recebi o diagnóstico, achei que aquilo fosse mudar minha vida e que eu não seria mais capaz de trabalhar ou de me relacionar com as pessoas de forma saudável”, conta a profissional da área de RH. Com acompanhamento psicoterapêutico, Gabriela conseguiu perceber que o TB não mudava sua capacidade ou seu potencial. “Tive que falar muito sobre o assunto até entender que o diagnóstico não era minha vida toda.” Hoje, Gabriela vive em São Paulo e trabalha de forma remota em uma empresa dos Estados Unidos.

Tecnologia

Vista a dificuldade no diagnóstico do transtorno bipolar, alguns cientistas se dedicam a encontrar alternativas para identificar a doença de forma precoce. Francisco Diego Rabelo da Ponte, psicólogo doutorando em psiquiatria na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e pesquisador na University of Central Lancashire, no Reino Unido, busca maneiras de aliar tecnologia a esses diagnósticos. Ele participou de um grupo internacional de pesquisadores que criou um sistema capaz de prever se aos 18 anos um paciente é predisposto a desenvolver TB quatro anos depois, aos 22 anos. O estudo começou em 1993 e acompanhou 3.810 brasileiros nascidos em Pelotas naquele ano. Eles foram monitorados aos 11, 15, 18 e 22 anos. 

O resultado foi um algoritmo, desenvolvido com inteligência artificial, que consegue detectar a probabilidade do indivíduo desenvolver a doença antes de ela começar. Tendência suicida, ansiedade generalizada, evidências de abuso físico e sexual e problemas financeiros são sinais relacionados à bipolaridade, aliados à condição genética. Tudo isso é levado em conta pelo algoritmo. Ao perceber a tendência, o médico poderia, então, encaminhar o paciente para acompanhamento psicoeducativo e psicoterapêutico, além de instruí-lo a levar um estilo de vida saudável, com atenção especial ao ciclo circadiano, que é bastante alterado em pacientes com TB. “Assim se poderia evitar um episódio maníaco, um episódio depressivo, uma tentativa de suicídio”, justifica o psicólogo.

O algoritmo não faz a avaliação sozinho, é necessária a participação de um psicólogo ou psiquiatra, que irá inserir informações na máquina. “Ele não substitui a avaliação humana. O que ele faz é detectar um padrão nas informações avaliadas pelos humanos”, clarifica o pesquisador.

O estudo ainda não tem aplicabilidade clínica. “Mas ele mostra que existem outros caminhos para detecção do TB e, possivelmente, desenvolver estratégias de intervenção precoce para que se possa retardar o quadro ou prever pioras”, esclarece Rabelo da Ponte. Para que a calculadora possa ser usada em clínicas, o estudo precisaria ser replicado, para ver se o resultado se mantém, o que leva bastante tempo. 

 

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