11/10/2019 às 17h50min - Atualizada em 11/10/2019 às 17h50min

​O nosso Caçador de Relíquias desta semana vai contar a história do Movimento das Mulheres Trabalhadoras Rurais de Porto Xavier (MMTR)

Jornal Fronteira em Notícia

O movimento surgiu com a percepção da necessidade de as mulheres terem maior visibilidade dentro de suas comunidades e serem protagonistas na sociedade, ainda muito machista e repressora na época.
O movimento ganhou força na região das missões com o apoio da igreja católica, sob coordenação do padre Zeno Brand (in memoriam) em meados de junho de 1986.
Os missionários iam para as comunidades e estimulavam a participação das mulheres, na busca da formação de lideranças, representando os mais diversos segmentos da sociedade, como líderes das pastorais, do movimento dos trabalhadores sem-terra, entre outros. Após, se reuniam nos salões paroquiais das igrejas para discutirem seus problemas e suas possíveis soluções, visando a busca de melhorias, em especial para as mulheres, ainda carentes de muitos direitos, mas que com o auxílio da igreja formavam comissões, faziam almoços com doações e buscavam organizar-se para e conquistar seu espaço.
Na época, o então prefeito do município, senhor Bernardino David, também apoiava a inciativa das trabalhadoras rurais, já que o Sindicato dos Trabalhadores Rurais era exclusivo para os homens.
Um dia marcante para o movimento, foi o dia 16 de outubro de 1986, momento em que dez mulheres porto-xavierenses foram para Porto Alegre, durante dois dias, participarem de um grande debate para inclusão de sugestões das trabalhadoras para a constituição de 88. Elas buscavam direitos hoje adquiridos, como aposentadoria das trabalhadoras rurais e auxílio maternidade.
O movimento começou a ganhar simpatizantes e foi aumentando aos poucos, pois as mulheres vinham a pé das comunidades para participarem dos encontros na cidade. Muitas mulheres do MMTR regional vinham até Porto Xavier para auxiliar na luta, entre elas, Cecilia Bernard, Sonia Regina de Lemos, Isabel Freitas, Cecilia Picler, essa última psicóloga, que trazia para o debate temas nunca falados abertamente no passado, como sexualidade, por exemplo.
Outra pessoa importante no movimento foi Vicente Bogo, que era, na época, líder sindical da FETAG, bem como Elvino Bohn Gass, que era presidente do STR de Santo Cristo e sempre vinha até Porto Xavier dar apoio ao movimento. Orlando Desconsi, de igual importância, auxiliava o movimento como representante do Sindicato dos Bancários.
O movimento das Mulheres Trabalhadoras Rurais passou a se destacar no estado inteiro, além de temas relacionados aos direitos das mulheres, eram realizadas palestras sobre saúde da mulher, medicina caseira, reaproveitamento de alimentos, entre outros.
As reuniões regionais começaram a se intensificar e passaram a ser realizadas mensalmente, quase sempre em cidades estratégicas, como Cerro Largo ou Santo Ângelo. Geralmente participam representando Porto Xavier, Ilonia T. Schröpfer e Maria Nadir Engers Bratz (Negrinha).
No ano de 1987, as trabalhadoras rurais tiveram mais uma grande conquista, o STR reconheceu e se sensibilizou com a causa das mulheres e passou a permitir a associação das mesmas na entidade representativa da classe dos trabalhadores rurais. Outra grande conquista foi o FunRural, que foi um Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural, voltado para contribuição social. Seu recolhimento é obrigatório e essencial para que o empregador rural possa se aposentar.
Muitas mobilizações foram realizadas, inclusive uma integrante do movimento, senhora Loreni Krause, foi para Brasília representando as mulheres do município. Na época, as mulheres foram muito criticadas e muitas vezes até desestimuladas ouvindo “que essas ‘caminhadas’ não dariam em nada”. Mas elas não desistiram, pois queriam esses direitos e garantias, mas acreditavam que só conseguiriam lutando e talvez só seus filhos iriam aproveitar.
Em 1988, o MMTR e a igreja saem vitoriosos com a aprovação da constituinte, que previa os direitos tão esperados pelas mulheres, inclusive a aposentadoria.
Elida Sommer foi uma das primeiras mulheres a se aposentarem em Porto Xavier. Ela também foi coordenadora do MMTR de Porto Xavier por um período.
Conforme as mulheres foram conquistando seus direitos, muitas foram se afastando, mas com muita alegria, porque o objetivo do MMTR tinha sido conquistado. Muitas mulheres que estavam na luta ainda são lideranças em nosso município, como exemplo, Maria Schröpfer, que atualmente preside a COOPAX e Negrinha, que por muitos anos já preside a CRESOL.
Este é um belo exemplo de que a luta sempre vale a pena, pois todos os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras não foram conquistados em casa ou nas redes sociais, mas sim lutando e acreditando num mundo melhor.

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